por Paulo Lima
“Me lembro como se fosse hoje” é uma frase que Alceu Valença repete como um bordão no documentário Vivo 76, que conta sua trajetória artística. Boa memória é o que realmente não lhe falta.
É o próprio Alceu quem conta a maior parte de suas estripulias, em depoimentos que o levam de volta à infância. Na cena de abertura, o cantor e compositor retorna à casa em que viveu no pequeno município de São Bento do Una, no sertão pernambucano. É uma cena tocante, na qual o homem se revê na paisagem de menino.
O tom memorialístico impregna o filme do diretor Lírio Ferreira, conterrâneo do seu personagem. A irreverência, uma das marcas do artista Alceu, já se mostrava nas peripécias do menino “travesso, traquino, maluco”. O filme capta, por meio de closes, essa eletricidade ainda presente, refletida na vibração com que o cantor vai tecendo os fios de suas recordações.
O circo da sua infância lhe impregnou a vontade de ser palhaço e lhe deu a teatralidade de suas apresentações no palco. Mais tarde, na adolescência, o basquete lhe ensinou a ligeireza. Alceu estava transformado no raio da silibrina que o impulsionaria arte musical afora.
O documentário se assenta na sequência aloprada de imagens de arquivo, costurada por depoimentos de amigos, familiares e críticos musicais. Essa trepidação cai como um chapéu de couro na estética artística que Alceu trouxe à música brasileira. Uma linguagem combinando as raízes do Nordeste profundo com a eletricidade das guitarras. O encontro do “Delta do Mississippi com o Pajeú”, conforme definiu o jornalista e crítico musical Antonio Carlos Miguel no filme. É o próprio Alceu quem entrega a rapadura: “No HD da minha memória tem sobretudo sempre a música da minha região, a música do sertão profundo.”
Vivo 76 explora uma estrutura cronológica, ainda que o faça na forma tipicamente fragmentária da memória, com Alceu Valença pontuando os momentos-chave que o conduziram à sua carreira singular: o estudante em Harvard, o advogado que largou a beca, a mudança para o Rio de Janeiro, onde, tendo ao seu lado uma trupe de músicos nordestinos, como Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, “inventou uma coisa diferente, uma banda de pif elétrica”, no resumo de Luís Gonzaga.
“Eu sou muito vivo”, diz Alceu Valença a certa altura, brincando com a letra de sua canção Sol e Chuva, de 1976. O caos criativo, refletido na saraivada de ideias que ele dispara de forma incansável (ele conta que na meninice o chamavam de “veloz HP”), já demonstra essa vivacidade, dando o ritmo do documentário. É como se o menino “maluco” que foi um dia jamais o tivesse abandonado.
Paulo Lima




